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24/09/2015 | Artigos

VADEMECUM PARA RELIGIOSAS

APRESENTAÇÃO

Que alegria encontrar um espírito e uma mente como as do Cardeal Jorge Medina! Uma visão teológica aberta, próxima da realidade, com um fundo de sabedoria humanista e, ao mesmo tempo, profundamente arraigada na melhor tradição católica. As reflexões do Cardeal Medina, destinadas às religiosas são apresentadas com simplicidade e clareza, em um estilo límpido e transparente, compreensível a todos.
O ponto de partida do Vademecum para religiosas é a afirmação de que “todos nós cristãos somos chamados à santidade”. Dentro desse quadro geral, a religiosa é uma cristã que recebeu um chamado particular para viver os conselhos evangélicos da pobreza, castidade e obediência como caminho próprio rumo à santidade, em uma atitude de profunda humildade, gratidão pelo dom recebido e amor a Cristo-Esposo. Às belas considerações do Cardeal sobre a virgindade consagrada, permito-me acrescentar a título de complemento, esta passagem magnífica de São Bernardo: “Só a castidade significa o estado da glória imortal neste tempo e lugar de mortalidade; só a castidade reivindica para si, no meio das solenidades nupciais, o modo de vida daquela jubilosa razão na qual nem os homens nem as mulheres casarão, e desse modo permite na terra, a experiência da cidade celestial” (Carta 42, a Henrique, Arcebispo de Sens, 3, 8; PL 182, 816-817).
O texto do Cardeal Median termina com algumas recomendações práticas, cheias de humana e cristã sabedoria, que revelam um profundo conhecimento da vida consagrada e uma longa experiência pastoral; será sem dúvida alguma um guia seguro para o exame de consciência das pessoas consagradas.
Perante as dificuldades atuais de algumas congregações religiosas femininas, as orientações do Cardeal Medina são uma ajuda preciosa para superar a crise que atinge esta parte importante da Igreja.

Franc Cardeal Rodé, CM.
Prefeito Emérito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica

DUAS PALAVRAS

A origem destas páginas está do pedido de uma religiosa quem depois de ter lido um opúsculo meu intitulado Vademecum para sacerdotes, insistiu na necessidade de eu escrever algo semelhante para as religiosas. Não foi fácil fazê-lo, por vários motivos. Em primeiro lugar, porque sou um homem e por isso tenho uma sensibilidade muito diferente da do mundo feminino. Em segundo lugar, porque o meu conhecimento do mundo religioso feminino é bastante limitado. Por último, porque me parece que um escrito destinado às religiosas, para ser realmente útil precisa de um marco doutrinal que, no caso, dos sacerdotes, pode supor-se conhecido. Tratei de escrever aqui alguns elementos desse marco. De modo que sou consciente de que estas poucas páginas são bastante imperfeitas; têm seguramente algumas lacunas, deficiências e poderiam ter certamente uma melhor organização lógica. Por tudo isso, peço, desde já, perdão e indulgência a quem as ler.
Jorge Arturo Cardeal Medina Estévez

1. A RELIGIOSA É, ANTES DE TUDO, UMA CRISTÃ.

O Concílio Ecumênico Vaticano II, acolhendo a constante tradição da Igreja, enraizada nas Sagradas Escrituras, ensina que todos nós cristãos somos chamados à santidade. “Sede santos, porque Eu sou santo”, disse Jesus (Mt 5,48). E São Paulo acrescenta: “Porque esta é a vontade de Deus, a vossa santificação” (cf. 1Ts 4,3). “Ele escolheu-nos em Cristo antes de criar o mundo para que sejamos santos e sem defeito diante dele, no amor” (cf. Ef 1,4). Não é por acaso que os membros das primeiras comunidades cristãs eram chamados “santos” (cf. At 9,13; Rm 1,7; 15,25; 16,15; 1Cor 6,1,16,1), pois a santidade é a vocação de todo o cristão e, por assim dizer, o seu estado “normal”.
“Santo” é equivalente a “consagrado” ou “ dedicado a Deus”, e nossa consagração tem sua origem no Batismo. Nele morreu “o homem velho”, feito à imagem primeiro Adão, e da fonte batismal nasceu “o homem novo”, segundo Cristo, revestido de “justiça e santidade verdadeiras” (cf. Ef 4,24). Este “homem novo” tem como programa, segundo São Paulo, “viver para Deus e morrer para Deus” (cf Rm 14,8); e esse programa, exigente e jubiloso, não está reservado só para alguns cristãos ou para algumas categorias de fiéis, mas é válido para todos os discípulos de Cristo e para cada um deles no estado de vida em que a Providencia de Deus o tenha colocado. A esse chamado à santidade corresponde exatamente o primeiro mandamento da Lei de Deus: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente.” (cf. Dt 6,5; Mt 22,37; Mc 12,30; Lc 10,37). Que significam estas palavras, endereçadas a todos os cristãos, senão aceitar que a nossa vida tem um só centro, um só sentido, uma só finalidade e uma só plenitude, isto é, Deus? León Bloy, um grande literato católico francês, compreendeu isso muito bem quando escreveu “na vida existe uma só tristeza: a de não ser santos”.
Uma religiosa é, portanto, acima de tudo uma cristã e, como tal, uma consagrada pelo sacramento do Batismo. Como para todo cristão, sua atitude radical deve ser de uma profunda humildade, porque o Pai nos escolheu gratuitamente desde toda a eternidade (cf. Ef 1,3) e, sem que nós merecêssemos, oferece-nos o dom, através dos méritos do seu Filho Jesus Cristo e pela ação do Espírito Santo, da sua graça, da santidade, e definitivamente, da glória de seu Reino na Jerusalém celestial, na qual consiste a plenitude da salvação. Como todo o cristão, também a religiosa deve recordar incessantemente as Palavras de São Paulo: “Quem foi então que te deu esse privilégio? O que é que possuis que não tenhas recebido? E se recebeste, porque te vanglorias como se não tivesses recebido?” (1 Cor 4,7). Humildade não é desconhecer sinceramente que tudo o que é bom e belo em nós tem a sua origem na bondade inexaurível daquele do qual advém todo o dom perfeito (cf. Tg 1,17). Ele manifesta o seu amor dando-se às suas criaturas (cf. Tg 1,17). Ele manifesta o seu amor dando-se às suas criaturas (cf. Jo 3,16). Esta é a inspiração profunda do cântico da Virgem Maria (cf. Lc 1,46-55), atitude interior que todos nós cristãos podemos e devemos fazer nossa. A soberba, o orgulho e a vaidade são, pelo contrário, atitudes insensatas, tal como o constrangimento e a incipiência em esquecer que somos criaturas. E, como tais, dependemos, em todo o momento da nossa vida, da bondade misericordiosa de Deus que nos dá a existência e nos conserva nela (cf. At 17,28).

A humildade tem o seu desenlace natural na gratidão. Saber e dar-nos conta daquilo que somos e temos é um dom, é um convite constante a dar graças Àquele que nos concedeu todos os bens. Agradecer não é gesto humilhante, mas um ato de verdade, porque a humildade é a verdade. E a verdade, como disse Jesus, “tornar-nos livres” (cf. Jo 8,32). Todos os dias participamos na celebração eucarística, a qual, como diz o próprio nome, é essencialmente ação de graças pelos inumeráveis benefícios que recebemos do Senhor, quer na ordem natural, quer na sobrenatural. Alguém dizia que “o inferno está cheio de ingratos” isto é, de soberbos que foram incapazes de reconhecer que não são mais que criaturas e que, como tais, deveriam viver em função de Deus e não de si mesmos.
A ação de graças está intimamente relacionada com o amor. Ainda que o amor seja em geral acompanhado de sentimentos, não são esses que constituem a sua essência. Misteriosamente, o amor está relacionado ao sofrimento, e nesse se vê aquilo que o Filho de Deus feito Homem manifestou no seu amor ao Pai e por nós cumprindo a sua vontade, “tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (cf. Fl 2,8). Houve santos, como Santa Teresa de Jesus e São Filipe Neri, cujo amor a Deus foi tão veemente que chegou a lhes arruinar o coração de carne. Santo Inácio de Loyola, ao propor, nos seus “Exercícios espirituais”, a última meditação, chamada “contemplação para alcançar o amor”, convida aquele que faz os exercícios a rever com atenção e sem pressa o longo elenco de benefícios de toda espécies recebidos de Deus. Gostaríamos de ter um instrumento que, tal como o termômetro, nos indicasse em que medida há em nós verdadeiro amor a Deus, por amor a Ele, a nossos irmãos. À falta de um instrumento físico (que não existe para essa finalidade), o próprio Jesus nos dá uma preciosa indicação: “Se alguém me ama, observará a minha palavra” (cf. Jo 14,21.23-24). Esse critério nos foi também proposto por Jesus quando, ao nos ensinar a orar, nos faz dizer “seja feita a vossa vontade, assim na terra como no Céu” (cf. Mt 6,10). Antes de entrar neste mundo, pela sua encarnação no seio puríssimo de Maria, o Filho de Deus tinha dito: “Eis-me aqui para fazer a tua vontade” (cf. Hb 10,9). Nesse mesmo momento, a Virgem Maria, ao receber do anjo a mensagem de Deus, que lhe anunciava a sua maternidade divina, exprimiu a sua obediência dizendo: “Eis a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra” (cf. Lc1,38). Com toda a probabilidade, a Virgem, enquanto piedosa israelita, tinha na sua memória as palavras do salmo que diz: “Como os olhos da escrava, na mão da sua senhora, assim os nossos olhos estão voltados para o Senhor nosso Deus até que tenha piedade de nós” (Sl 123,2). Ali se cumpria, de modo inesperado, magnífico e perfeito, a grande obra da misericórdia do Pai, que é a nossa salvação através do seu Filho Jesus Cristo, feito homem no puríssimo ventre de Maria, em tudo igual a nós, exceto no pecado (Hb 4,15). Durante a sua angustiante agonia, Jesus exprimiu o seu amor ao Pai dizendo-lhe: “Meu Pai, se este cálice não pode passar sem que eu o bebam faça-se a tua vontade” (Mt 26,42). Toda a vida de Jesus pode ser resumida nas suas palavras “ Eu faço sempre o que lhe (ao Pai) agrada” (Jo 8,29) e o “Meu alimento é fazer a vontade daquele (o Pai) que me enviou para cumprir a sua obra” (Jo 4,34). Não é lógico interpretar como supremo grito de amor e de obediência às últimas palavras de Jesus na cruz: “tudo está realizado!” (Jo 19,30)? É como se tivesse dito: “Eu te amei, ó Pai, em todo momento e por amor a Ti te obedeci dobrando plenamente a minha vontade à tua.” É assim que se mende o amor, através da fidelidade à vontade de Deus, expressa nos seus mandamentos, nos critérios evangélicos, nos exemplos de Jesus, nas inspirações e emoções do Espírito Santo; nas circunstâncias em que a Providência de Deu situou a nossa existência, através da obediência àqueles que detêm uma autoridade legítima, civil ou eclesiástica. É pertinente recordar aqui as palavras de São João da Cruz: “No ocaso da vida, seremos julgados sobre o amor”; sem esquecer que “se alguém dissesse: Eu amo a Deus”, e odiasse o seu irmão, seria um mentiroso. De fato, quem não ama o seu irmão que vê, não pode amar a Deus que não vê (1 Jo 4,20; Jo 1,18; cf. Mt 25,31-46).
Tudo aquilo que se disse pressupõe uma profunda vida de fé. A fé é um olhar amoroso para tudo aquilo que Deus nos disse acerca de si mesmo e da sua obra de salvação. A fé é uma luz poderosa que nos consente e nos permite ver, muito mais além e com maior profundidade, o sentido e o valor das pessoas e dos acontecimentos. A fé descobre a sabedoria divina nas situações em que os juízos humanos veem apenas “casualidades”, boa ou má “sorte”, “destino” ou “fatalidade”. A palavra de Deus afirma claramente que “é impossível agradar a Deus sem a fé” (Hb 11,6) e nos escritos paulinos se leem por três vezes a afirmação que “o justo viverá pela fé” (cf. Rm 1,17; Gl 3,11; Hb 10,38). Viver “da” fé significa que não é possível a vida verdadeira, a vida em Cristo, sem aderir, por meio da fé, a toda a mensagem evangélica e sem fazer com que, com a graça de Deus, essa adesão se reflita em todos os atos e opções de nossa existência. Um cristão que vive pela fé recorda as palavras da Carta aos Hebreus: “A fé é um modo de já possuir aquilo que se espera, é u meio de conhecer realidade que não se veem [...] Pela fé sabemos que a Palavra de Deus formou os mundos; foi assim que aquilo que vemos se originou de coisas invisíveis”. (Hb 11,1.3). A Carta aos Hebreus contém ensinamentos muito belos e substanciais sobre a fé na vida cristã: é nosso deve lê-los (Hb 10,19-12,2). Além disso, a Carta aos Efésios nos ensina que a fé é a defesa mais poderosa contra as contínuas insídias de Satanás (cf. Ef 6,16), algo que também inculca a Primeira Carta de São Pedro (1 Pd 5,9).


2. QUAL É O SENTIDO DA CONSAGRAÇÃO RELIGIOSA?

Não é uma consagração superior à basilar, fundamental e original que recebemos no Batismo, nem é um ato que coloque o religioso numa espécie de categoria de cristão de primeira classe e de per si superior àqueles que não pertencem ao estado religioso. É maior aos olhos de Deus aquele que vive com mais fervor e maior intensidade as virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade. Assim se exclui, em todo o bom religioso, qualquer sentimento de superioridade ou de auto complacência, que estaria muito distante da humildade cristão e englobaria os mal dissimulados vícios de soberba e de vaidade.
O que é, pois, a consagração religiosa? É a resposta a um chamado de Deus, a uma vocação especial (“vocação” significa precisamente “chamado”), que dentro da vocação de todo cristão à santidade, como o ensinam as Sagradas Escrituras (cf. os textos citados no ínicio do n.1) eo Concílio Vaticano II voltou a sublinhar (Constituição Dogmática Lumens Gentium, capítulo 5), Deus convida alguns a procurar a santidade no âmbito especial da vida religiosa, em qualquer de suas muito variadas formas reconhecidas pela Igreja, através do uso e do exercício dos instrumentos comuns a todos os cristãos e, em particular, daqueles que são próprios da vida monástica ou religiosa. É interessante considerar como São Bento, patriarca dos monges do Ocidente, elenca no nº 4 da sua sapientíssima “Regra dos monges” = RB numerosos “instrumentos das boas obras”, muitos deles comuns a todos os cristãos e outros específicos da vida monástica, e que são os meios para alcançar a santidade, cada qual no lugar onde a Providência de Deus o colocou.
A vocação para a vida religiosa é um dom gratuito de Deus e será, para aquele que d´Ele recebe, o caminho concreto do seu seguimento de Cristo, a forma vital e jubilosa da sua fidelidade a Ele e o seu modo exato de sua colaboração para o crescimento e para a vitalidade da Igreja. Um bom religioso, sabe apreciar e valorizar as qualidade cristãs daqueles que vivem coerentemente a fé no estado laical e se abstém de formular comparações entre o mérito de sua própria vida e o daqueles a quem o Senhor não chamou a servi-lo a vida religiosa, mas sim no estado laical e matrimonial.
O que é que caracteriza a vida religiosa? Não é fácil dizê-lo, pois são muito variadas as formas que ela teve e tem na Igreja. Pode-se, no entanto, fazer uma tentativa para descrevê-la. Antes de tudo é, feita exceção à vida eremítica, uma vida em comunidade, ou seja, em convivência fraterna, compartilhando atividades comuns na experiência cotidiana, de acordo com o esquema definido pelos estatutos da própria família religiosa (Regra, Constituições, Regulamentos, Costumes, etc.), ditados pelos fundadores e aprovados pela autoridade da Igreja. A comunidade religiosa é como uma pequena Igreja a qual se vive, com características próprias da vida cristã, articulada segundo as três virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade; e sobre as quatro virtudes cardeais que são a justiça, a prudência, a fortaleza e a temperança. A comunidade assemelha-se a um ateliê, no qual cada um dos membros colabora com os outros nas tarefas comuns e dá o seu contributo generoso e entusiasta em vista dos objetivos que são característicos do próprio Instituto. A comunidade tem a característica de uma família, na qual há laços de fraternidade entre os seus membros e uma relação filial com os superiores. Se todas as virtudes cristãs devem fazer parte da atmosfera espiritual de uma comunidade religiosa sã, é justo indicar que nela exercem uma função importante a caridade, a humildade, a paciência, a prudência e a discrição.
De modo especial, pertencem à identidade da vida religiosa a pobreza, a obediência e a castidade celibatária ou virginal.
A pobreza é, antes de tudo, uma atitude interior de destaque daquilo que é supérfluo, do afã de possuir, tal como do desejo de ser o centro e o arbitro de tudo o que acontece. De certa forma, a obediência e a castidade são formas de pobreza. Os vários institutos regulamentaram a forma de viver a pobreza religiosa na sua própria comunidade, mas nenhum regulamento pode suprir o autentico espírito de pobreza, isto é, o desejo interior e eficaz de se contentar com o que é necessário e suficiente, e de não olhar nenhum bem deste mundo como exclusivamente próprio (cf. Mt 5,39). É possível até chegar a falsificar a pobreza, obtendo dos superiores complacentes as “permissões” regulamentares para possuir o que, nos sentido estrito, é supérfluo. Os grandes santos fundadores de famílias religiosas atribuíram a máxima importância ao espírito e à prática da pobreza; assim, entre muitos outros, São Bento, São Francisco de Assis, Santa Clara, Santa Tereza de Jesus e Santo Inácio de Loyola.
A obediência religiosa é a submissão à vontade do legítimo superior, reconhecendo nela a expressão da vontade de Deus. Os superiores não são infalíveis em suas decisões e podem se equivocar; por isso a Igreja os convida a que, antes de tomarem decisões, especialmente se elas são importantes, ouçam o parecer de conselheiros experientes e dotados de sentido sobrenatural. Por seu lado, o súdito tem o direito, e inclusive em certas ocasiões, o dever de manifestar com confiança e sinceridade ao superior as dificuldades que percebe no cumprimento da decisão proposta ou tomada. Se o superior insiste, o religioso, em espírito de fé, se submete, tendo confiança em que Deus, que sabe “escrever direito em linhas tortas”, fará com que aquilo lhe pareça inconveniente ou inapropriado se resolva, sem dúvida, de modo positivo, já que “todas as coisas concorrem para o bem dos que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu projeto” (RM 8,28).
A castidade celibatária dos religiosos consiste na renúncia a contrair matrimônio e, consequentemente, na renúncia às legítimas satisfações humanas, espirituais e físicas, próprias desse estado, inclusive àquelas que pertencem ao campo tão íntimo e delicado, como é o da sexualidade e da genitalidade. Sobre esse aspecto serão feitas, mais à frente, considerações complementares, quando falarmos da virtude da castidade, humana e cristã, nas suas diversas formas, necessárias a todo homem e a toda mulher e a todo o discípulo de Cristo.

3. OS "CONSELHOS EVANGÉLICOS" NO NOVO TESTAMENTO

Estamos acostumados a considerar como “conselhos evangélicos” os três que correspondem aos votos de pobreza, obediência e castidade, porém, no Novo Testamento existem outros “conselhos” que fazem parte de um programa de vida cristã: a oração, a ascese, o perdão das ofensas, a laboriosidade, a perseverança e tantos outros.

O próprio Jesus se referiu aos três clássicos conselhos evangélicos.

Falou do desapego dos bens materiais no caso do jovem rico que não o seguiu por estar agarrado aos seus numerosos bens de riqueza (Mt 19,16-29). Referiu-se também à ambição desmedida de bem estar material na parábola do homem rico, que tivera abundantes colheitas e pensava como guardá-las para o seu próprio proveito e satisfação (Lc 12,16-21). Na parábola do rido epulão e do pobre Lázaro (Lc 16,19-31), Jesus insinua claramente que a abundancia e o excessivo bem-estar podem levar ao egoísmo e à insensibilidade perante os sofrimentos do próximo.

O próprio Jesus levou uma vida sóbria, quer na sua infância e juventude em Nazaré, na casa de seu pai davídico, São José, com a profissão de carpinteiro (MT 13,55; Mc 6,3), quer na sua vida pública, quando afirmou que “Não tinha onde repousar a cabeça” (Mt 8,20; Lc 9,58). Nas suas viagens, várias vezes recebeu ajuda de piedosas mulheres, e depois da morte na cruz foi sepultado em um túmulo que não era de sua propriedade. Jesus não condenou a posse de bens materiais, mas deixou perceber que esses podiam constituir um obstáculo para o podermos seguir, sobretudo quando se possuem como fim e não como um mero instrumento. Assim se deve interpretar a primeira bem-aventurança: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus.” (Mt 5,3). É claro que o modo de praticar a pobreza não pode ser o mesmo em um monge, em um leigo casado, que tem responsabilidades familiares, em um homem dedicado às ciências, noutro que tem uma empresa ou que é um operário. Contudo, todos eles devem olhar os bens que possuem como se fossem seus administradores e não propriamente donos; bens de cuja administração deverão um dia prestar contas àquele que, afinal, é o verdadeiro e único dono de tudo o que existe.

A castidade é uma virtude imprescindível na vida de cada ser humano e de todo o cristão. Há duas modalidades: a castidade celibatária e a castidade matrimonial. O Concílio Vaticano II não usa a precedente e antiga terminologia que falava de castidade perfeita e imperfeita, mas fala de castidade por amor do Reino dos Céus, dando assim a entender que se trata de duas formas diversas do exercício da virtude da castidade: ambas genuínas, em conformidade com a vocação de cada pessoa, na sua resposta ao chamado universal à santidade.

O objeto da castidade é a reta medida e moderação no exercício da função genital e no prazer que ela traz consigo, de forma natural e legítima. A função genital está em relação com a sexualidade, mas diferencia-se da mesma, pois enquanto esta permeia toda a pessoa humana e a sua dimensão corpórea, aquela está localizada sobretudo em determinados órgãos, diretamente relacionados com a reprodução. O exercício da função genital é correto e moral somente no matrimonio. Nele é, ao mesmo tempo, expressão de mútua e recíproca doação e aceitação de recíprocas responsabilidades para toda a vida; como também de abertura à geração de novos seres humanos, nos quais Deus põe o seu selo dotando-os de alma espiritual e por isso imortal. A sexualidade humana foi duramente afetada pelo pecado original, de tal modo que se tornou uma fonte de impulso assaz forte, desordenado e egoísta, e que aparece de forma autônoma e independente em relação àquelas que são as exigências do seu exercício moral (Gn 3,7.10-11.16.2). Esta desordem que envolve também outras áreas da conduta humana e não apenas a da sexualidade chama-se concupiscência e exige da parte do cristão um empenho permanente para não sucumbir ao seu impulso. A ela se refere São Paulo quando escreve que “... os atletas se abstêm de tudo; eles, para ganhar uma coroa perecível; nós, para ganharmos uma coroa imperecível. Quanto a mim, também eu corro, mas não como quem vai sem rumo. Pratico o pugilato, mas não como quem luta contra o ar. Trato com dureza meu corpo e submeto-o, para não acontecer que proclame a mensagem aos outros, e eu mesmo venha a ser reprovado” (1 Cor 9, 25-27). No uso da função genital no matrimônio, que é o seu lugar natural e o único moralmente correto e santo, os cristãos devem ser moderados, delicados e pudicos, sabendo que a genitalidade é uma realidade circunscrita à vida transeunte deste mundo: o próprio Jesus afirma que “na ressurreição, os homens e as mulheres não se casarão, pois serão como os anjos no Céu” (Mt 22,30).

A diferença e a complementaridade dos sexos trazem consigo a imagem do amor de Deus – Esposo para com seu povo eleito Israel- esposa (Os 2,4-25; Ez 16,1-63) e a do amor de Cristo-Esposo por sua Igreja-esposa (Ef 5,21-33; Ap 21,2ss.).
Os Padres da Igreja viram, no momento em que o soldado feria, com a lança, o lado de Cristo de onde saía sangue e água (Jo 19,34), uma imagem daquela longínqua intervenção em que Deus formou a primeira mulher, tirando-a do costado de Adão (Gn 2,21-24): pois o sangue e a água simbolizam os dois sacramentos do Batismo e da Eucaristia, colunas da Igreja, a Esposa de Cristo. A realidade matrimonial, sacramento portador da graça, convida aos cristãos, que vivem nesse estado, a amar-se “como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela; assim, ele a purificou com o banho de água e a santificou pela Palavra [o Batismo], para apresentar a si mesmo uma Igreja gloriosa, sem mancha nem ruga ou qualquer outro defeito, mas santa e imaculada” (Ef 5,25-27). Quem não vê nestas palavras de São Paulo um fervoroso chamado a viver o matrimônio cristão como um autêntico caminho de santidade? E quem não vê nelas um desafio de purificação do amor conjugal, para o libertar dos egoísmos que o afastam do verdadeiro amor em Cristo?


A Igreja reconheceu a santidade de não poucas pessoas que viveram no estado matrimonial, como Santo Henrique I, imperador da Alemanha, e sua esposa Santa Cunegundes; Santo Isidro, o Agricultor, e sua esposa Santa Maria de La Cabeza. Em tempos mais recentes, os pais de Santa Teresa do Menino Jesus, os beatos Luís Beltrame Quattrocchi e Maria Corsini, cujos quatro filhos tiveram a alegria de participar na solene celebração em que o Papa João Paulo II, agora santo reconheceu publicamente a sua santidade. No santuário do Divino Amor, perto de Roma, onde jazem os restos mortais dos esposos Beltrame Quatrocchi, dirigem-se muitos noivos para celebrarem o sacramento portador da graça, convida aos cristãos, que vivem nesse estado, a amar-se
“como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela; assim, ele a purificou com o banho de água e a santificou pela Palavra [o Batismo], para um fervoroso chamado a viver o matrimônio cristão como um autêntico caminho de santidade? E quem não vê nelas um desafio de purificação do amor conjugal, para o libertar do egoísmos que o afastam do verdadeiro amor em Cristo?

A Igreja reconheceu a santidade de não poucas pessoas que viveram no estado matrimonial, como Santo Henrique I, Imperador da Alemanha, e sua esposa Santa Cunegundes; Santo Isidro, o Agricultor, e sua esposa, Santa Maria de La Cabeza. Em tempos mais recentes, os pais de Santa Teresa do Menino Jesus, os beatos Luís Martin e sua esposa Zélia Maria Guerin. E quase nos nossos dias, os beatos Luís Beltrame Quattrocchi e Maria Corsini, cujos quatro filhos tiveram a alegria de participar na solene celebração em que o Papa João Paulo II, agora santo, reconheceu publicamente a sua santidade. No Santuário do Divino Amor, perto de Roma, onde jazem os restos mortais dos esposos Beltrame Quatrocchi, dirigem-se muitos noivos para celebrarem o sacramento do Matrimônio.

Na igreja houve muitas santas viúvas, algumas das quais, no tempo de viuvez, abraçaram a vida monástica. Entre elas podemos recordar Santa Mônica, mãe de Santo Agostinho; Santa Margarida, rainha da Escócia; Santa Isabel, rainha de Portugal; a sua tia-avó, Santa Isabel, rainha da Hungria, Santa Joana Francisca de Chantal, fundadora das monjas da Visitação; Santa Rita de Cássia e muitas outras.

Falemos agora da castidade celibatária. Concentramo-nos naquela que, em virtude de uma vocação, é escolhida como “estado perpétuo de vida”. Por agora, não abordamos a castidade cristã própria daqueles que ainda não contraíram matrimônio, ou daqueles que, depois de enviuvarem, não contraíram novas núpcias.

Esta forma de castidade corresponde a uma vocação e chamado de Deus: é ele que as inspira no coração de alguns cristãos e cristãs, nos quais se cumprem as palavras de Jesus: “Há homens eunucos, porque nasceram assim; outros porque os homens os fizeram assim; outros ainda tornaram-se eunucos por causa do Reino dos Céus. Quem puder entender, entenda” (Mt 19,12). Essa terceira categoria não se pode explicar a não ser à luz da fé, porque a renúncia voluntária ao matrimonio implica pôr de lado uma condição que pertence à própria natureza humana. E é deixada de lado não por conveniências puramente humanas, nem por medo das responsabilidades que o matrimonio comporta, nem por egoísmo ou comodidade, nem para manter uma maior liberdade no desenvolvimento das próprias atividades e iniciativas, ou por não se ter conseguido concretizar o desejo de se casar, mas por amor do Reino do Céu, onde as mulheres não tomarão homem, nem os homens tomarão mulheres. É possível abraçar o celibato somente por amor do Reino dos Céus, em virtude de uma graça especial de Deus, a qual tem como fundamento uma fé muito viva nas realidades que não se veem e que são também origem daquelas que são perceptíveis aos sentidos corporais (Hb 11,1.3). Aquele que, após devidos discernimento, reconhece ter recebido esta graça, faz a sua escolha co uma profunda humildade, sabendo que a mesma tem origem num dom gratuito de Deus e não num mérito pessoal, e se abstém de qualquer sentimento de superioridade em relação àqueles que não receberam o mesmo chamamento de Deus, para o servir neste caminho. Dado que este tipo de castidade em geral é feito com um voto (como no caso das religiosas e religiosos e também, segundo o meu modesto parecer, no caso dos diáconos “transeuntes” na Igreja latina), é justo dar-lhe o qualificativo de consagração. Em que sentido? Não, por assim dizer, “em paralelo” ou “em substituição” ou “acima” da consagração batismal, mas como um caminho no qual cumpre uma missão confiada pelo Senhor. Uma via ou caminho que tem por meta a santidade via que comporta graças especiais e que tem uma relevância importante para a comunidade eclesial. Essa via é um reflexo, modesto e humilde, do estado de vida que foi escolhido nesta terra por Nosso Senhor Jesus Cristo e foi abraçado pela sua Santíssima Mãe, a sempre Virgem Maria.

O Concílio de Trento emitiu uma declaração que é preciso ter em consideração e análise: “Se alguém disser que o estado conjugal se deve antepor ao estado de virgindade ou de celibato, e que não é melhor e mais perfeito permanecer em virgindade ou celibato em vez de unir em matrimonio (Mt 19,11ss; 1 Cor 7,25ss.38.40), seja anátema”. Isso quer dizer, portanto, que tal afirmação é errônea e que a afirmação contrária é a doutrina correta. Considero que o ensinamento do Concílio se refere à avaliação em abstrato dos respectivos estados; ou seja, ao considerar a virgindade ou o celibato por si mesmo superiores ao estado matrimonial, porque este último pertence à condição terra da humanidade e não ao seu destino definitivo na vida eterna. Mas, considerando que tanto o matrimonio como a virgindade ou o celibato correspondem, quer um, quer os outros, a uma vocação ou chamado que Deus faz a um determinado cristão ou cristã para o servir e a procurar a santidade no seu respectivo estado, segundo e ensinamento inequívoco do Concílio Vaticano II, em concreto e para cada pessoa o caminho de busca de santidade está intimamente ligado ao estado ao qual Deus, através de uma vocação pessoal, o chamou a cumprir nele a sua santa vontade. Dito de outro modo, para aquele que foi chamado ao estado matrimonial não seria mais perfeito escolher o estado celibatário, para o qual não foi chamado, e vice-versa.

A vida ou consagração ao estado celibatário é um chamado a atenção de todos os cristãos leigos que vivem submersos nas ocupações e preocupações da temporalidade para que, cumprindo seriamente as próprias responsabilidades e deveres não deixem de ter consciência que passa a cena deste mundo (1 Cor 7,31). Na vida eterna existirão diferenças entre homens e mulheres e persistirá o afeto entre aqueles que neste mundo foram unidos pelo sagrado vínculo do matrimônio; mas esse afeto será diferente nas suas expressões do que existiu na terra, como será também diferente a realidade corpórea dos ressuscitados, segundo o ensinamento de São Paulo (1 Cor 15,35-49).

A obediência é uma relação natural entre os seres humanos. Existe entre os filhos e os pais e reciprocamente entre esposos. Há a obediência por respeito às legítimas autoridades civis e também aquela pela observância das leis, que foram promulgadas para tutelar o bem comum da sociedade. Existe na organização militar e também nos organismos administrativos do Estado. Maria e José obedeceram à autoridade do César romano, que tinha ordenado um recenseamento no império (Lc 2,1-4) e foram também observantes da Lei mosaica quando circuncidaram o menino Jesus (Lc 2,21); quando o apresentaram, ainda menino, no Templo de Jerusalém (Lc 2,22-24); e igualmente quando o levaram ali, pela primeira vez, como adolescente (Lc 2,41ss). O mesmo Jesus exerceu a obediência, quando foi submetido na casa de Nazaré à autoridade de Maria e de José (Lc 2,51); e mais tarde, quando recordou o tributo a César (Mt 24-27) e exortou que o pagassem (Mt 22,16-22); quando se submeteu à autoridade de Pilatos que, contra toda a justiça, apesar de reconhecer a sua inocência, o entregou aos judeus para ser crucificado (Jo 18,28; 19,16).

Aceitar a obediência é reconhecer que Deus governa o mundo através dos seres por Ele investidos de autoridade, para harmonizar a convivência humana e ditar normas para a tutela do bem comum. A existência da autoridade, perante a qual vigora o dever tanto da obediência como de colaboração, não é apenas uma realidade nas sociedades humanas, mas também no seio da Igreja. O ministério pastoral exerce, em nome de Cristo, um poder cuja finalidade não é outra coisa senão endereçar os fiéis, através das vicissitudes da vida terrena, para a consecução do glorioso destino final que é a vida eterna.

Toda a autoridade é um serviço e nenhuma autoridade possui o direito de se comportar com arbitrariedade, ou de exercer abusos ou atropelos das leis de Deus ou da natureza, ou a menosprezo da dignidade que é própria e inerente a toda a pessoa humana. Nenhuma autoridade humana é absoluta, porque acima dela está sempre a de Deus, e aquele que a detém, um dia, terá de prestar contas do seu serviço diante d´Ele. Tinha isso muito presente Santo Agostinho quando cunhou sua célebre afirmação, pregando aos seus fiéis, dizendo-lhe que: “Para vós, sou bispo; e convosco sou cristão. Enquanto o nome de bispo me enche de medo, porque terei de prestar contas acerca de vós, o nome de cristão enche-me de confiança, porque como tal sou alvo da misericórdia de Deus.


4. RECOMENDAÇÕES

As breves linhas que se seguem não são propriamente um programa, mas uma oportunidade para examinar a própria consciência. Muitas delas são apresentadas em forma de interrogação, para que se torne mais fácil percebê-las como um desafio; outras, pelo contrário têm uma formulação mais direta e prática.

NO PROGRAMA DE VIDA QUOTIDIANO

• “Levanta-te cedo”, porque nas primeiras horas da manhã estamos mais ágeis para cumprir os nossos deveres e, além disso, é o tempo mais apropriado para nos dedicarmos à oração. De fato, com o avançar do dia, cansamo-nos e podem surgir muitos imprevistos que impedem a oração.
• Deita-te igualmente cedo e evita permanecer acordada, porque o nosso corpo precisa de repouso suficiente para poder recuperar forças e equilíbrio, para começar o dia seguinte em boas condições. Em geral, aconselham-se sete a oito horas de sono.
• Quando acordo, começo o dia pensando em Deus e ofereço-lhe o dia que começa?
• Reservo, durante o dia, momentos de tranquilidade e silêncio para dedicar à oração?
• Se na minha comunidade a recitação da Liturgia das Horas faz parte dos compromissos de oração, faço-o em comunidade ou em privado, na hora devida, sem pressa, dignamente, com atenção e devoção?
• Rezo, todos os dias, o terço como expressão da minha devoção à Santíssima Virgem Maria, recordando nos mistérios o plano salvador de Deus?
• Dedico, todos os dias, tempo suficiente à leitura espiritual? Escolho as minhas leituras entre as obras escritas pelos santos, por mestres de vida espiritual ou pelos pastores da Igreja, no exercício do seu magistério? Ou prefiro antes leituras superficiais que satisfazem a curiosidade e em nada contribuem para a minha formação?
• Leio os escritos da fundação da comunidade religiosa à qual pertenço e as constituições que a governam?
• Participo devotamente na celebração do Santo Sacrifício da Missa, evitando distrações, observando silêncio, abstendo-me de comentários não necessários, preparando-me devidamente e fazendo a ação de graças no final? Omiti a participação na Santa Missa por preguiça, desorganização ou negligência?
• Amo o silêncio, sabendo que nele se ouve a voz de Deus, ou entretenho-me, pelo contrário, em conversas que me distraem daquilo que é necessário?
• Disturbo com a minha loquacidade o desejo de as minhas irmãs observarem o silêncio, especialmente nas primeiras horas do dia ou nas horas vespertinas?
• Esforço-me para ser pontual, seja para participar nos atos comunitários de espiritualidade, seja para cumprir, em horário exato, as minhas obrigações e compromissos? De fato, ser pontual é uma expressão de respeito caridoso a fim de que os outros não percam tempo, causando-lhes aborrecimentos.
• Durante o dia, dedico parte do meu tempo a ver programas inúteis, frívolos e até abertamente imorais na TV? O tempo não nos pertence: é um dom de Deus e Ele no-lo concede para o empregarmos no seu santo serviço e nos dos nossos irmãos, não para perdermos ou desperdiçarmos.
• Fui gulosa, comendo fora de hora ou procurando saciar-me com alimentos requintados, não acessíveis a toda a comunidade, desperdiçando por isso recursos que excedem o espírito de santa pobreza?
• Comi em excesso, mais do que necessário, e sobretudo preferi alimentos que podem prejudicar seriamente a minha saúde?
• Fui exigente acerca dos alimentos que a comunidade nos oferece, esquecendo que no mundo há milhões de seres humanos que morrem literalmente de fome, ao passo que a nós não nos falta nada para nos alimentarmos? Pus de lado algum alimento pela simples razão de que não gosto ou não é do meu agrado?
• Deixei-me dominar pela curiosidade, procurando desnecessariamente coisas que não são da minha competência ou comentado-as inutilmente com outras pessoas? Tive dúvidas em encontrar informações que podem interessar sobretudo a outras pessoas, que vivem no mundo, e certamente não são próprias de religiosas?
• Fiz perder tempo a outras pessoas, não me ocupando delas com prontidão, fazendo-as esperar inutilmente ou deixando para depois o que se podia ou devia fazer primeiro?
• Procuro tornar minha em todos os momentos a regra do Evangelho, que nos convida a tratar os outros como gostaríamos que nos tratassem? Ou tenho duas medidas: uma abundante, confortável e generosa para mim mesma e outra reduzida e miserável para os outros?
• Deixo-me guiar pelo mau hábito de viver lamentando-me de tudo aquilo que não me agrada, criando desse modo um ambiente negativo, triste, semeando descontentamento à minha volta? Ou então, pelo contrário, procuro manter-me sempre alegre no Senhor e mostrar-me contente mesmo no meio de realidades desagradáveis? Santa Teresa de Jesus dizia que tinha mais medo de uma monja descontente do que de uma legião de demônios.
• Sou indiscreta, fazendo comentários desnecessários sobre os defeitos dos outros e acerca dos membros da comunidade, porventura com pessoas estranhas à mesma e que os poderiam comentar com outras pessoas?
• Usei desproporcionalmente ou sem necessidade o telefone, durante mais tempo do que realmente era necessário e útil, repetindo palavras supérfluas, frases feitas, saudações intermináveis e deixando “ a rédeas soltas” uma insana curiosidade? Procedendo desse modo, não fazemos outra coisa senão perder tempo, fazemo-lo perder aos outros e fazem-se despesas significativas.
• Ao longo do dia podem acontecer coisas que contrastam com aquilo que tínhamos desejado ou que complicam ou tornam difícil aquilo que programamos. Ao recordar que nada acontece fora da vontade de Deus, fui paciente em relação ao que é desagradável ou alterei-me com aquilo que não está de acordo com os meus desejos e planos?
• A comunidade é constituída por pessoas diferentes, cada uma com suas qualidades e defeitos. A vida fraterna exige um exercício contínuo se adapte à nossa medida e ao nosso gosto. Nem sempre é possível corrigir tudo o que se podia fazer melhor. Tive paciência perante os limites e defeitos das minhas coirmãs? Deixei-me dominar pelo desejo de lhes denunciar os próprios defeitos ou erros, não esperando pela ocasião oportuna para o fazer sem as humilhar? E quando, vice-versa, uma irmã me fez notar um defeito meu, acolhi a sua observação com humildade, reconhecendo o meu erro, ou então elaborei uma série de desculpas e explicações para fazer boa figura, sem reconhecer a minha falha ou procurando atenuar a sua importância? É profícuo meditar sobre a paciência, de Deus para conosco, recordando a de Jesus com os seus inimigos, com Pilatos, com os Apóstolos, com Pedro e até com Judas Iscariotes.
• Saí da casa religiosa sem ter necessidade disso, simplesmente para fazer visitas do meu agrado, não motivadas por razões apostólicas, de caridade ou de serviço?
• Se tiveres doença passageira ou crônica, não te esqueças de obedecer ao médico ou de observar rigorosamente as suas prescrições e, entre essas, uma dieta alimentar que te permita conservar a saúde em perfeitas condições. Cuidar da saúde faz parte da tua fidelidade a Deus, porque ela te permitirá servi-lo da melhor maneira possível, durante todo o tempo que ele te conceder viver neste mundo; e, não menos importante, evitarás que a tua família religiosa faça despesas, por vezes não pequenas, provocada pela irresponsabilidade em cuidar da própria saúde.

NA VIDA DE COMUNIDADE

• Procuro ser amável com todas as coirmãs, sem me deixar levar por sentimentos ou inclinações de simpatia ou antipatia? Evito a parcialidade com as pessoas? Procuro ver o rosto de Cristo nos outros, apesar dos seus defeitos e limites?
• Procuro aliviar o trabalho das minhas coirmãs ou deixo-me guiar por um comportamento egoísta, pensando apenas no que me interessa, não me preocupando com o que interessa aos outros?
• Nos momentos do convívio comunitário, sou portadora de alegria e ideias, ou faço críticas e observações não agradáveis ou negativas que estragam o ambiente?
• Quando uma coirmã fez uma experiência de sucesso, partilho a sua alegria, encorajo-a e congratulo-me com ela, ou deixo-me dominar por sentimentos de inveja, fazendo observações a fim de diminuir ou desvalorizar o sucesso dos outros?
• Sou capaz de rir com os que riem e chorar com os que choram? Ou faço o contrário?
• Mostro-me disponível ou serviçal em assumir trabalhos humildes e pouco agradáveis, ou manifesto com gestos e palavras minha escassa disponibilidade, tornando assim mais difícil as decisões das superioras?
• Se na comunidade há grupos que não andam de acordo, tomo partido por algum deles ou procuro manter-me independente, reconhecendo o que há de positivo em cada ato?
• Procuro aceitar as minhas coirmãs como são, sem qualificar alguma delas por causa de algumas faltas de personalidade, omitindo ter em conta as suas qualidades?
• Quando há eleições, coloco-me numa perspectiva de luta pelo poder, ou procuro purificar as minhas preferências avaliando sobretudo o que está mais conforme com o Evangelho, mais direto à santidade e mais útil à paz e a à comunhão dentro do instituto?
• Tenho uma disposição permanente em considerar com parecer positivo a vontade das superioras
• Se na comunidade há grupos que não andam de acordo, tomo partido por algum deles ou procuro manter-me independente, reconhecendo o que há de positivo em cada ato?
• Procuro aceitar as minhas coirmãs como são, sem qualificar alguma delas por causa de algumas faltas de personalidade, omitindo ter em conta as suas qualidades?
• Quando há eleições, coloco-me numa perspectiva de luta pelo poder, ou procuro purificar as minhas preferências avaliando, sobretudo o que está mais conforme o Evangelho, mais direto à santidade e mais útil à paz e à comunhão dentro do instituto?
• Tenho uma disposição permanente em considerar com parecer positivo a vontade das superioras, ou deixo-me levar habitualmente pela crítica e pelo descontentamento?
• Procuro tratar com especial caridade, bondade, compreensão e delicadeza as coirmãs menos dotadas, as doentes e as anciãs, ou aquelas que sofreram uma humilhação ou algum fracasso?
• Se recebi o encargo de superiora, penso que isso é antes de mais uma responsabilidade de serviço?
Mostro favoritismo com fatos, palavras ou gestos? Deixo-me levar por simpatias ou antipatias, sem considerar as razões objetivas? Peço humildemente conselho, sobretudo antes de tomar uma decisão importante? Sou capaz de reconhecer os meus erros e de me corrigir quando me engano? Ouço com respeito às opiniões não coincidentes com as minhas e procuro avaliar diante de Deus o que nelas pode haver de positivo? Ou deixo-me dominar pela ideia errada de que, representando a autoridade, tenho sempre razão? Agarro-me ao cargo fazendo todo o possível para ficar nele, ou estou disponível para voltar, com humildade e alegria, à condição de súdita?
Aproveitei a minha situação de superiora para me conceder benefícios, facilidades, ou privilégios dos quais não gozam as outras coirmãs? Fui complacente em aceitar festejos excessivos em desvantagem da pobreza?

ALGUMAS SUGESTÕES PRÁTICAS

• Aproxima-te do sacramento de penitencia ou reconciliação com certa frequência e periodicidade, se possível, não deixes passar mais de um mês desde a última confissão.
• É preferível que tenhas um confessor fixo: isso te ajudará como também ao teu confessor, a conhecer melhor tuas fragilidades e necessidades espirituais. Escolhe para confessor um sacerdote digno, de idade madura, com experiência, de parecer sereno e de reta doutrina.
• Tende uma grande confiança no confessor: nunca lhe ocultes alguma coisa que te possa ter afastado de Deus. Não entre em pormenores inúteis, mas não deixes de lhe manifestar aquelas circunstâncias que revelam dificuldades especiais na tua vida interior.
• Se no começo da direção espiritual, ou em outro momento oportuno, te percebes que é necessário, para a tua paz, fazer uma confissão geral, que abranja toda a tua vida, prepara-a bem para que seja feita com calma e sem pressa. Mas não a repitas se não for necessário, porque poderias cair em escrúpulos e poderia ser sinal de que não confias na misericórdia infinita do Senhor, que sabe muito bem que somos feitos de barro.
• Se em alguma ocasião precisares de te dirigir a outro confessor, fá-lo com liberdade. Mas se tiver de manifestar a esse sacerdote alguma coisa que é um obstáculo grave na tua vida espiritual, não deixes de informar o teu confessor habitual, para que ele conheça o verdadeiro estado da tua alma. Ocultá-lo significaria enganar Deus, o confessor e a ti mesma. Que lucrarias com isso?
• Pode acontecer que, por várias circunstâncias, tenhas de mudar de confessor; sobretudo se aquele que tens não te dá toda a ajuda de que precisas. Sente-te à vontade para fazeres a mudança, mas deves ter presente que nem sempre é fácil encontrar um bom confessor e que muitas vezes temos de nos contentar com aquilo que é possível; não temos à nossa disposição o ótimo e devemos contentar-nos com o que encontramos.
• No que diz respeito ao voto de pobreza e de obediência, já demos algumas sugestões. Deixo aqui algumas indicações relativamente à castidade celibatária.
• A castidade celibatária e a virgindade consagrada são dons muito preciosos de uma especial graça de Deus. São dons delicados dos quais é preciso cuidar. “O coração nunca envelhece”, disse-me uma religiosa idosa e santa, já falecida. Por isso, é uma insensatez e uma ilusão pensar que só o passar dos anos nos livra das tentações da carne e do apego sensual a outras pessoas, especialmente do sexo oposto.
• Aquele que consagrou ao Senhor o seu coração na castidade celibatária deve viver o seu estado com alegria, agradecido ao Senhor por esse dom, protegendo-o de tudo o que o possa arruinar e pensando, com satisfação, que está a viver segundo a escolha de Jesus para viver nesta terra, antecipando assim o que será a vida na eternidade. Este viver jubiloso é próprio de um coração que consagrou a sua castidade celibatária ao Esposo divino, é o que diferencia este celibato de uma solteira que não o escolheu, não assumiu, nem o amou. E é também um testemunho confortante para a própria comunidade e para os crentes.

Irmãs: vivamos com alegria, no Senhor, o estado ao qual ele mesmo nos chamou misericordiosamente e sem mérito da nossa parte, para a sua glória, para o nosso bem e para o da Santa Igreja de Deus. Recordemos sempre que “Deus faz com que tudo concorra para o bem daqueles que o amam” (Rm 8,28). Tudo, sem exceção, com a única condição de ser feito amorosamente.

Fonte: Livro VADEMECUM PARA RELIGIOSAS



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